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Walachai-RS
Montag, 14. März 2011 um 15:46 Uhr


          Walachai entra no mapa,

por Lorenzo Aldé.

Quando se mudou com os pais para Novo Hamburgo, aos 9 anos, Rejane Zilles mal falava português. Era chamada pelos colegas de “alemoa batata” e odiou a nova vida. Tudo o que queria era voltar para Walachai. Sua terra natal ficava a menos de 40 quilômetros de distância. Mas era, literalmente, outro mundo. E ainda é.

Walachai (pronuncia-se “valarrai”) significa, em alemão, “lugar distante de tudo”. Não ganhou este nome à toa. Localizada em um pequeno vale entre serras, a comunidade surgiu em 1829, época em que as primeiras levas de imigrantes alemães chegavam ao Rio Grande do Sul. Seu fundador foi Mathias Mombach, que aderira à guarda pessoal de Napoleão depois que o imperador francês invadiu a Alemanha, e viu-se pobre e sem emprego, num país arrasado, quando terminou aquele período de guerras. Como tantos outros, aceitou a oferta de terra gratuita no distante Brasil. Ao chegar, foi o único que ousou transpor o morro de Dois Irmãos, atrás do qual se ofereciam lotes maiores, apesar de quase inacessíveis. Por duas décadas morou sozinho por lá, com sua numerosa famílias e dezenas de cachorros (para protegê-los dos ataques de indígenas, ou bugres).

Aos poucos chegaram outros imigrantes, mas o isolamento fez de Walachai um lugar parado no tempo. Sem nem sinal da presença do estado, aquele povoado tratou de se organizar por conta própria. Construiu igrejas e escolas, produzia seus próprios alimentos (principalmente batata) e tornou-se auto-suficiente graças aos mestres artesãos: moleiros, sapateiros, costureiras e ferreiros. Na falta de quem os ensinasse a língua nativa, continuaram falando apenas alemão. Assim atravessaram o século XX e entraram no XXI.

Superado o trauma e adaptada há tempos ao Brasil “brasileiro”, Rejane Zilles, já trabalhando como atriz no Rio de Janeiro, constatou que o caso de Walachai merecia ser conhecido. Quando decidiu fazer um filme sobre o tema e começou a pesquisar, deparou-se com uma revelação ainda mais fascinante: já existia um livro sobre a história do lugar. Um livro de quase 400 páginas escritas à mão e ilustrado com fotos de época.

O autor da epopéia (que vai do pioneiro Mathias Mombach a curiosidades cotidianas e recordações pessoais), é João Benno Wendling, que saiu jovem de Walachai para ser seminarista, foi viver em São Paulo, ganhou formação erudita e voltou à vila alemã em 1944 para se tornar professor, alfabetizando as crianças. Era o auge da Segunda Guerra Mundial, e vigorava um decreto de Vargas proibindo que se falasse alemão em público. O governo, que nunca dera as caras na comunidade, passou a mandar agentes infiltrados para prender “suspeitos”. Assim, da noite para o dia, as aulas passaram a ser em apenas português, para surpresa dos alunos, que não entendiam uma palavra. O professor Benno lecionou por 41 anos, e depois de aposentado voltou a trabalhar na lavoura, “para viver com dignidade”. Mas arrumou tempo para, durante nove anos, pesquisar e escrever a minuciosa descrição daquele lugar, seu passado e sua gente.

“O livro de Walachai” e seu autor eram tão interessantes que Rejane inverteu suas prioridades. Realizou um curta-metragem com este título, lançado em 2007, e deixou o longa sobre a comunidade para depois. Mais precisamente, agora: as filmagens estão em andamento. “Precisava contar a história do professor Benno logo, para que ele desfrutasse do reconhecimento em vida”, explica a diretora, preocupada com os 84 anos de seu personagem.

No novo filme, ela pretende “ampliar a lente”, mostrando os aspectos que tornam Walachai um Brasil isolado do Brasil. Não se pode nem dizer que é uma comunidade “alemã”. Os vínculos com a terra de origem não foram cultivados pelos imigrantes, que deixaram para trás um país de péssimas recordações. A língua que utilizam sequer existe mais: é um dialeto arcaico da região de Hunsrück. Até hoje sem telefone (internet, nem pensar) e pouco afeitos à TV, mantêm o padrão de vida comunitário e uma simplicidade quase anacrônica para a região mais desenvolvida do país, a menos de 100 quilômetros da capital Porto Alegre. Sentem-se brasileiros e envergonham-se por não dominarem a língua. Ainda assim, “cem entre cem moradores não querem sair do lugar”, segundo Rejane, que conhece bem este sentimento.

A descrição soa distante do estereótipo dos “alemães que vivem isolados e não gostam de se misturar”. É esta visão equivocada que a diretora pretende desfazer, ao revelar a complexidade de uma cultura sem similar no país. Cultura que, ela prevê, caminha lentamente para a extinção (“As gerações mais jovens não querem mais ficar na roça”). Mas não para o esquecimento: está tudo lá, no livro “História de Walachai”, de João Benno Wendling, em firme tinta de caneta azul.a
Primeira sessão de "Walachai" foi ao ar livre.
O documentário “Walachai”, que conta a história de uma região atípica do Rio Grande do Sul, teve sua exibição de estreia, em 12 de dezembro, para os moradores das comunidades que participaram da obra. A primeira sessão de cinema de Walachai, que pertence ao município de Morro Reuter, será ao ar livre, com tela de projeção e cadeiras montadas ao lado da igreja, às 20h. O documentário é dirigido e roteirizado por Rejane Zilles, que nasceu no local e viveu lã até os 7 anos de idade.
A obra retrata as particularidades da rotina dos habitantes do Walachai, que fica a 70 quilõmetros de Porto Alegre, e de outras pequenas localidades, como Jamerthal, Batatenthal, Padre Eterno e Frankenthal. Os moradores desses locais têm uma cultura própria, com hábitos e costumes muito distantes daqueles das grandes cidades. O trabalho é, essenciainiente, na roça e a maioria dos habitantes fala um antigo dialeto alemão,

Fonte: Correio do Povo.

 

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