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| 127 anos da imigração Italiana no Rio Grande do Sul |
| Freitag, 22. Mai 2009 um 21:17 Uhr |
AS CAUSAS DA IMIGRAÇÃO:Na Itália, até 1870, quando da unificação do país, não existia paz entre as nações e entre o povo. Existiam ressentimentos, maus tratos, revoltas entre os miseráveis e os mais abastados. A imensa massa de agricultores não possuía sequer casa própria ou um palmo de terra ou outras posses, e era obrigado a viver num regime de grande exploração econômica e social. Inexistiam leis trabalhistas para agricultores e operários, e, encarando o futuro, não se divisava luz no fim do túnel. Moravam todos: avós, pais, filhos, noras e netos- amontoados dentro de uma pobre e pequena casa alugada do proprietário da terra. Além da miséria grassavam epidemias. A malária matava 40 mil pessoas por ano; uns 100 mil de pelagra e outros 400 mil moriam de cólera. O espectro da fome, desemprego e morte rondava por toda parte. A numerosa massa popular era impedida de votar, pois o título eleitoral devia ser comprado por alto preço e quem comprava eram os ricos. Por isso surgiu o adágio popular: “Sapete che i siori, la lege i se la fa lori” (Os ricos fazem as leis em proveito próprio). Outrossim, a quase totalidade do povo era analfabeta, pois não podia estudar e assim, nem votar, conseqüentemente, aos pobres agricultores (chamados de contadini), o que esperar? Outra causa interna que fomentou a imigração foi a superpopulação. Os italianos do norte e do Vêneto eram muito férteis, conseqüentemente, as famílias eram numerosas. Diante da total falta de comida, liberdade, felicidade, comodidade, conforto e sem vislumbrar um futuro melhor, os miseráveis italianos julgavam que a melhor solução era emigrar. Pouco se lhes dava abandonar uma pátria madrasta que os fazia sofrer e morrer. Diziam: “Mortos por mortos, vamos tentar uma saída”. Em face dessas horrendas dificuldades, reacendeu-se, reviveu o espírito, o ideal dos velhos Vênetos: foram assaltados pela coragem, pelo pioneirismo, pelo caráter desbravador, pela disposição de vencer sempre pela bravura, pelo trabalho. Como seus ancestrais, decidiram emigrar, enfrentar o desconhecido e vencer pela luta, pois sem luta, não há vitória. A emigração também impediu uma convulsão social de conseqüências imprevisíveis. Ela foi uma necessidade, a única saída para sobreviver. Não foi um gesto de fuga, um ato de covardia, mas sim, um ato de coragem e desejo de vencer, pois, somente os corajosos se decidiram pela emigração. Até 1875, pouco antes de começar a grande emigração, a Itália contava com 30 milhões de habitantes, sendo que uns 21 milhões eram agricultores. De 1875 a 1915 mais de 14 milhões de italianos deixaram sua pátria, sendo que deste total, 1.225.120 aportaram no Brasil. Vilarejos inteiros no interior da Itália, desapareceram por completo, da noite para o dia, pois todos os habitantes emigraram. Para quem nada tinha, a esperança de ter um pedaço de terra para dele tirar a comida para saciar a fome dos filhos, fez com que estes milhões de italianos partissem e ficassem esquecidos pela pátria mãe, por mais de um século. Deliso Villa, em seu livro “Stòria Dimenticata” – história esquecida - assim escreve: “a emigração italiana: a história de uma multidão expulsa de sua pátria e abandonada à própria sorte, como nenhuma outra nação se permitiu”. A LONGA E HORRENDA VIAGEMA primeira e mais importante providência dos que partiam era a aquisição do passaporte e o atestado de vacina, depois era vender o pouco que tinham para conseguir alguns trocados a mais. Realizavam as visitas e os “filós” de despedida, não esquecendo de dar um derradeiro adeus aos familiares que repousavam nos cemitérios. Chegava assim o derradeiro dia, a última noite, a extrema refeição com os familiares... a pouca comida custava a descer... e depois, partir para tão longe, para nunca mais voltar. Acordavam-se cedo... era o momento de partir. Começavam os abraços, os beijos; as lágrimas escoriam pelas faces e as palavras eram entrecortadas pelos incontidos soluços. Mas era preciso partir. Um derradeiro olhar para trás, um extremo abanar de braços e lenços. Era o fim doloroso para os que ficavam e o começo das dificuldades para os que partiam. Com lágrimas nos olhos, tinham-se despedido do torrão natal, que os unia na lembrança de tão belas recordações; mas estavam dispostos a abandonar a pátria sem sentir remorso algum, já que ela lhes era conhecida apenas sob duas formas odiosas: o recrutamento militar e depois partir para a guerra e a cobrança rigorosa de impostos e dívidas, tirando-lhe o pão de cada dia. Para o pobre emigrante, a pátria é a terra que lhe dá o pão, e lá, bem longe, esperavam encontrá-lo. Do porto de Genova era onde partiam os navios que transportavam os emigrantes, e a espera para embarcar, muitas vezes, levava dez, quinze ou até mais dias. Durante este tempo, os emigrantes eram importunados por espertalhões, que por todos os meios, tentavam arrancar-lhes os poucos vinténs que possuíam. Não faltaram espertalhões que, apresentando-se como despachantes, pediam o dinheiro para comprar a passagem e sumiam-se para sempre. Também os agentes da imigração, recebiam comissão dos bodegueiros e hoteleiros de Genova, e encaminhavam os emigrantes com vários dias de antecedência, deixando-os expostos a todo tipo de privação e exploração. Num ambiente de confusão e transtornos, com dificuldades de última hora, com pertences roubados, embarcavam e partiam. Mais do que um, dos navios de passageiros utilizados, parecia geralmente um navio de carga, entulhado de pessoas a bordo e amontoadas como animais rumo ao matadouro. Em 6 de agosto de 1906, perto das costas da Espanha, houve o naufrágio do navio “Sírio”, que por excesso de peso, partiu-se ao meio, com toda carga humana (1700 pessoas), Morreram todas. Esse fato não foi esquecido entre os colonos do Rio Grande do Sul, quando cantam: “Sirio, Sirio, la misera squadra, per molta gente la misera fin”. Em muitos navios, devido às péssimas condições de higiene e a má alimentação, o navio facilmente se transformava em um antro de epidemias e morte. Aos mortos e moribundos, o mar serviu de lugar para o derradeiro sono. Ao chegarem ao Brasil, os emigrantes passavam um certo tempo na ilha das Flores, no Rio de Janeiro, donde depois, eram embarcados para seus locais de destino. Muitos recordavam o horror da grande travessia que fizeram – algumas demorando até 3 meses - onde, principalmente as crianças adquiriam enfermidades que as atormentavam por muito tempo depois de chegarem ao destino. Mas as dificuldades não terminavam ali. A NOVA TERRAA grande maioria dos italianos, ao chegar à América, não viu o fim, mas o aumento das privações. Em qualquer país em que desembarcassem, caso se apresentassem como trabalhadores, eram tratados pelos interesses de quem procurava apenas braços para o trabalho; vinham-se como colonos, esperavam-nos as matas, onde o desamparo era uma constante. No Rio Grande do Sul, em 1824 aportaram os alemães e tomaram posse das terras planas existentes nas férteis bacias dos rios Sinos, Caí, Taquari e Rio Pardo. Restava ocupar a encosta superior da Serra, região montanhosa, cheia de pedras e de terras pouco profundas; era a sobra das áreas de terras pertencentes ao governo imperial, que tocou para o imigrante italiano. Em 1875 o governo imperial planejou as 4 colônias imperiais, a fim de tomar definitivamente posse de vastas regiões ainda desocupadas, na então Província do Rio Grande do Sul: 1ª - Conde D’Eu (atual Garibaldi); 2ª - Dona Isabel (atual Bento Gonçalves); 3ª - Fundos de Nova Palmira (atual Caxias do Sul) e 4ª- Silveira Martins. O imigrante italiano não foi para a região da serra porque tinha saudades da região montanhosa da Itália donde vieram, mas sim, por não haver outras áreas disponíveis. Foi mera coincidência virem de uma região montanhosa na Itália e ocuparem outra região montanhosa aqui. Os imigrantes após passarem pela ilha das Flores, no Rio de Janeiro, eram embarcados aos seus destinos. O roteiro dos que vinham para o Rio Grande do Sul, previa uma baldeação em Rio Grande, uma parada em Pelotas, chegando depois em Porto Alegre, onde eram alojados em barracões imundos, e sem alimentação adequada. A situação encontrada, muito diferente da prometida reduzia ao desespero aquela pobre gente. Em Porto Alegre eram embarcados no vapor até Montenegro e depois seguiam a pé ou lombo de burro, pela picada aberta no meio do mato. De Montenegro a Garibaldi eram 64 km e até Bento 78 km. No final da viagem eram alojados/amontoados no barracão dos imigrantes, até que o lote fosse demarcado pelos agrimensores. Muitos que haviam resistido até então, sucumbiam nos umbrais do que lhes haviam descrito como “a terra prometida”. Grassava a morte no barracão. Fracos, com poucos cuidados higiênicos, sem assistência médica e mal alimentados, muitos sucumbiam. Até farinha podre distribuíam para o imigrante. Quis a sorte, porém, que tivessem umas boas estações de pinhão, que lhes matou a fome, pois de outro modo, a tragédia teria sido grande. Transcorridos os dias de permanência no barracão, partiam para o lote, onde abriam uma clareira, construíam uma cabana de pau-a-pique, coberta de ramos de árvores. Era o primeiro abrigo da família, onde, à noite, ardia sempre o fogo para afugentar os animais, e no inverno, para aquecerem-se do frio. Vias de comunicação, ferramentas, não tinham. Onde estavam as promessas do governo e dos agentes da imigração? No entanto, não havia mais retorno. Para não morrer era necessário partir para o trabalho: cortar árvores, queimá-las, amontoar ramos, plantar, cuidar da roça, defender a plantação contra os animais, trabalhar até 15 horas por dia. Nesse meio tempo houve muita fome nas colônias e muitos colonos morreram de fome, naquela terra que lhes havia sido descrita como a terra da fartura. A primeira e bendita colheita, só chegou 2 anos após a derrubada do mato, mas era disputada por muitos pretendentes, entre os quais macacos, papagaios e outros animais, e aves que investiam contra as plantações. Se estes animais prejudicavam, justiça deve ser feita, apanhados e mortos, mais de uma vez encheram as panelas, proporcionando o alimento tão necessário para o colono. A NOVA VIDAHoje, quando olhamos a região italiana, desenvolvida, rica, cortada por boas estradas, não conseguimos imaginar o tamanho das dificuldades que os primeiros italianos passaram. Imaginem-se vocês, jogados no meio do mato, sem comida, roupa, remédio ou vizinhos. Que situação de extrema dificuldade. A religião, a fé em Deus, Nossa Senhora ou seu santo devoto, aliado ao trabalho árduo e contínuo, foram os alicerces onde as famílias dos colonos italianos se apoiaram para vencer nesta terra bendita, que os acolheu de braços abertos. Nós, brasileiros-italianos, também temos história, cultura, temos um patrimônio cultural e humano único, que não existe mais na Velha Itália: é o nosso falar Talian, nossos filós, nossa maneira simples de ser e viver como nossos pais e avós nos ensinaram… e temos convicção de que somos italianos no mundo. Mas trabalharam…e venceram. “O qui si vince, o pur si muore” Luiz Agostinho Radaelli |



























