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Mariana Diehl, a barqueira. HILDA A. HÜBNER FLORES, historiadora.
A ética protestante, de dignificação ao trabalho, certamente estimulou o crescimento verificado desde a década de 1820 no minifúndio agrário da Colônia de São Leopoldo. Imigrantes conhecedores da navegação renana ioga construíram rústicas canoas e, desde 1828, passaram a colocar no mercado consumidor de Porto Alegre os excedentes agrícolas e uma variada gama de utilidades artesanais. Para surpresa, dentre os 117 barqueiros arrolados na documentação do AHRS, despontam cinco nomes femininos: Bárbara Petri, Catarina Rohtmann, Catarina Voigt, Maria Julia Weierbaclh e Mariana Diehl. A família Diehl, sete filhos, chegou a São Leopoldo em 1827 e logo abarcou o ramo náutico. Sebastião reunia mercadorias no armazém do Passo, e Mariana os trazia a Porto Alegre. Negócio em crescimento, filhos maiores entrando no trabalho, enquanto mais seis ela colocou no mundo, ao longo dos anos. Quantas vezes teria navegado grávida? A guerra civil, a partir de 1835, quebrou o ritmo de progresso ao requisitar animais, gêneros alimentícios, armas brancas, munição e cerca de 3 mil homens, não raro com experiência em armas, o marido e um filho chegaram a ser presos, por fundirem balas de canhão em sua serralheria. Em 1841, distanciada a guerra, São Leopoldo partiu para a reconstrução e a retomada produtiva. O diretor, Hlllebrand, arrolou mais de 400 pro-dutos colocados na Capital.Barqueiros navegavam em comboio, como proteção às emboscadas de oportunistas. O filho Carlos e o genro Bier, com suas familias, estabeleceram armazém na Praça da Quitanda, hoje Alfândega, em Porto Alegre. Mariana, em uma das 17 viagens que fez em 1841, trouxe a família Orsi, malvista na Colônia por sua simpatia com os farrapos. João Carlos Dreher, outro passageiro, narrou sobre o desconforto da viagem nesses barcos sem toldo e sem bancos. Mariana, “mulher decidida e corajosa”, escreve ele, convidava as pessoas a se acomodarem da melhor forma sobre sacos e caixas de mercadorias, para aguentar a viagum de 8 horas ao balanço dos remos. Ao meio-dia, pernas adormecidas e costas doendo, Mariana mandava atracar para o improvisado almoço, na barranca do rio. Negócios em ascensão, os Diehl adquiriram na Alemanha o vapor Flecha, de 10 HP. Pouco depois, em 1847, faleceu Sebastião, sexagenário. Mariana não se abateu e capitaneou os negócios, enriquecendo a frota com um potente vapor de ferro, também alemão. Em Rio Grande, um dos fiilhos foi vitimado pela explosão de uma caldeira. Mas o desastre veio em 1855. A cólera-morbo ceifou 10% da população. E os vapores dos Diehl subiram o Sinos em sucessivas levas, conduzindo os filhos e os netos de Mariana, com destino ao campo santo de São Leopoldo. Mariana, a barqueira destemida, sobreviveu com as noras e os netos pequenos. Sem mão de obra masculina, só lhe restou passar o empreendimento náutico à família Becker, que se notabilizou no ramo, tendo ela sobrevivido mais oito anos.
Fonte: CORREIO DO POVO SEXTA-FEIRA, 16 de setembro de 2O11 |